Ramires
O velho não pode ficar só porque nasceu com duas pernas atrofiadas do seu irmão gêmeo. Xipófago, para cada lado que vai tem que discutir em silêncio com Ramires, seu desafeto pregado. Sua vida se resume a uma eterna confusão e solidão litigiosa. Nem um suspiro é autorizado. Se ronca, querela. Se peida, gritaria surda. Ele pensa que vai ficar louco. Ele pensa em cometer suicídio, e por tabela, um homicídio. Ramires está cada vez mais impossível. Espaçoso e rabugento, reclama do arroz grudado, do café frio, das tarde de ócio morno. As pernas se localizam na barriga cujas ondulações ficam sempre encobertas pela camisa muito bem apanhada do velho. O velho jamais revelou a identidade do irmão, a ninguém. Vive só, e, por ironia do destino, não pode tomar suas próprias decisões. Ramires gosta de passear no parque, enquanto o velho preza por ficar debaixo do seu teto escutando música antiga. Ramires brada não, não, não, e sua revolta se manifesta numa tremenda dor de barriga. Então o velho a contragosto desliga a vitrola, mete o calção puído entre as pernas (as suas) e sai em direção ao parque da vizinhança. Nem o sabor do picolé o velho tem o direito de escolher. Ramires sente um eterno desfalque, alega que o irmão roubou-lhe os ouvidos, o olfato, as mãos, a fala. E, por conta disso, vive numa eterna clausura no corpo do velho. E, por conta disso, escolhe o sabor do picolé: uva.
Espaçoso e rabugento, Ramires tratou logo de arquitetar um plano para manipular o corpo do irmão desenvolvido. (Mesmo que o velho tivesse a consciência de que, sim, tinha um corpo, ele acabava por nunca administrar seus quereres, servindo Ramires e seus apêndices tolhidos de todas as vontades.) No fundo, Ramires aprecia essa posição de algoz mutilado ao gozar plena soberania sobre o corpo do irmão mais velho, cuja sorte reside numa só cartada: Talvez em sonho, enquanto Ramires ressona na penumbra, o velho possa finalmente viver como bem entende, e provar um pouco o gosto de uma feliz autonomia.
Natércia Soluça Lúcida >
Um sítio de galinhas & dramas pessoais
4.11.09
escrito por natércia pontes
29.10.09
23.10.09
20.10.09
Hugo atravessa a porta de vidro como um fantasma, Hugo, um bife, me esquarteja, me mata. Hugo morreu.
Hugo tem um jeito elegante de segurar a faca. Corta o bife sem ruído. Separa uma porção de arroz e acrescenta à garfada o pedaço perfeito da carne. Mastiga com olhar perdido. Pensativo, os olhos fixos, pretos, atravessando os meus. Amendoados, a alface desleixada sobre o feijão. Sílabas, muxoxos. Hugo está triste e come para passar. Não consigo atingi-lo. Os ombros largos, camisa de listras, muralha. Hugo mastiga. Hugo suspira. Acena ao garçom, pede um suco. Hugo bebe o suco com os olhos fixos. O canudo abocanhado, os ruídos de prato; do garçom, o sorriso tímido. Hugo está onde nunca estive. Hugo, eu te amo. Hugo. Contemplo seu dedo indicador sobre o corpo da faca, reto. Hugo é tão grande. Hugo, você é o mundo. Hugo pede a conta, caminha grandalhão até o caixa do self. Meus olhos amendoados seguem os passos arrastados. Saca do bolso tantas notas. Diante da porta de vidro Hugo se despede com braços largos, braçadas olímpicas. Eu sinto uma dor na barriga. Hugo, quero mudar tua vida. Hugo sorri a primeira vez. O garçom retribui o sorriso – desta vez mais aberto. Hugo olha para meus olhos, os amendoados. (Um dia, na praia, Hugo assegurou ter caprichado neles com orgulho.) Hugo, não vá, me ensina a segurar a faca assim. Hugo, não vá, que paisagem sem sol, os olhos pretos, vai agora fazer sentido para mim? Meu corpo, Hugo, teu corpo, Hugo, um bife.
escrito por natércia pontes
18.10.09
"Como compreender um rosto, se ele não tem rosto. Ele parece dizer: tu me verás pelas costas, a minha face não será vista. Por mais que haja indícios de um rosto, digo e repito: o Leviatã não tem rosto."
Rio, Moby Dick do Aderbal
escrito por natércia pontes
5.10.09
escrito por natércia pontes
2.10.09
Desabafo do anti-poeta
Ajeita o chapéu preto. O chapéu folgado na cabeça. Ajeita o chapéu preto e toma um trago. Respira suado:
– Não sou poeta. Não cultivo esse apreço sintético, estético, com as palavras. Sou mais feijão. E todo esse olor adocicado que os literatos exalam me desanima. Não vejo sangue, riso, não vejo ninguém à vontade. Sou mais colo. Sou mais gato sem literatura, sem verniz da pretensão. Quero estar longe desse povoado de vampiros. A maioria deles forma um time desafinado de maus poetas. Maus poetas que lambem suas crias em resenhas herméticas, chatas e falastronas — sem esquecer dos pequenos favores editoriais. Maus poetas que só pensam em cu. Não o cu propriamente dito, mas o cu literário, aquele que fede mais porque não existe. Nada contra cu, mas tudo contra maus poetas. (Não culpo seus livros — livros ruins ensinam mais que livros bons, às avessas.) Os maus poetas são pragas de cadernos de cultura, de blogs pernósticos, de livros bobos e sisudos, de produções prisão de ventre. Explico: produções prisão de ventre são aquelas que jamais deveriam ser expelidas e cujas circunferências são maiores que o próprio cu do poeta. O Brasil está contaminado de maus poetas que consideram literatura maior que a vida. A vida é feijão, amor, riso. A vida é como meu chapéu e a literatura um detalhe, um broche, uma metáfora pouca. A literatura não tem nada a ver com os maus poetas, com a pompa, com a falta de cu. Literatura não separa, não se fala, literatura se compreende, se come, se deita, se abraça. Estamos todos escrevendo, escrevendo o tempo todo — não há como não pensar assim. Não sou poeta, não sou. Penso o mundo assim. Penso a vida assim. Penso eu assim.
Tosse e pede a conta. Ajeita mais uma vez o chapéu preto. Cambaleia até o taxi. Poste elétrico. Some o carro na curva.
escrito por natércia pontes
1.10.09
Saudoso Leopoldo,
Você que é tão jovem e tem esse nome de velho. Meu amado Leopoldo. Le-o-pollll-do. Encosto a ponta da língua no céu da boca. Sinto falta das suas mãos compridas e retas a me fazer carinho nas costas, a precisão do toque, a invasão permitida enquanto lavo a louça e esboço qualquer coisa que finge um sai pra lá. Leo de olhos indestrutíveis, confesso, só aqui, a tantos quilômetros, percebo como você faz falta. Eu, essa eu, que só reclama da sua atenção excessiva, da sua observação sucinta a respeito do meu problema com horários.
– Mas a consulta não estava marcada para às três? São três e quinze.
Eu menti, Leo. Inventei que era às cinco para disfarçar meu desespero egoísta de estar sempre atrasada em relação ao mundo.
– Não disse que era às três. É às cinco.
Você e essa sua mania correta de se antecipar, Leo. E para sair por cima de qualquer briga — a meu ver, meu maior triunfo —, eu inventei que era às cinco, me vesti às quatro, e quase acreditei que ainda havia consulta marcada no meu nome. Saí à deriva pelo trânsito, e na volta tramei um diálogo médico, como prova cabal da minha razão:
– Como foi a consulta?
– Foi bem. O médico me parabenizou, disse que eu era uma múmia muito bem conservada e só pediu para eu redobrar a atenção ao sal.
– Que bom.
Que bom, e só isso. Você logo voltou os olhos ao quebra-cabeça que dissecava há anos, o mesmo castelo gótico mal-formado, com lacunas de peças minúsculas, gastas nas curvas, o papelão que escapa do plástico, do corte, ameaçando a imagem em tufos, ameaçando o encaixe, Leo. E você insiste em montar e desmontar a mesma imagem triste. A de um castelo gótico que, bem certo, nunca existiu. Como eu tenho ciúmes desse maldito castelo, Leo. A sua retidão beira a frieza. É claro que você está lendo esta carta em alternância com as lacunas do quebra-cabeça velhaco de mil peças. Adivinhei? Que saco, Leo.
Que saco. Aqui chove. Hoje à tarde uma pomba rasante apontou na varanda, como uma estrela cadente, do nada. Não era uma estrela, mas uma pomba imunda, Leo. Por favor, me conta. Me conta qualquer coisa que não tenha horário, nem peças de encaixe, nem regra; me fala dos seus olhos, das suas mãos, me toca com elas, por favor, Leo, me toca com elas, mais uma vez.
Com amor,
Dora
escrito por natércia pontes
14.9.09
6.9.09
Não
A maneira sistemática de como perfilava os olhos sobre o caminho que a fiação percorria no quarto escuro, iluminado somente por um abajur velho, a cúpula de tulipa quebrada, a maneira sistemática de Sérgio criar tempo e silêncio, para construir seus estratagemas, suas respostas sucintas e previsíveis, irritava Sônia que, deitada — Sérgio de pé, um passo avançado no quarto, as pernas rijas, o semblante disfarçadamente apaziguado, os olhos percorrendo o caminho dos fios, geometricamente perfeitos, retos, sem curvas irregulares e nuances inesperadas —, esperava um sim maternal, paternal, fraternal, filial e amoroso.
escrito por natércia pontes
3.9.09
Elefante
Há três dias não tomava banho. Fazia frio, o conforto do próprio cheiro, humores, modorra, a fumaça acre da calcinha suja, sob os lençóis imundos. Por sobre eles, algumas cruzadas, livros ainda lacrados por um plástico fino, o preço estampado em adesivo amarelo. Dois cinzeiros entupidos de bitucas abandonadas decoravam o criado-mudo com a gaveta semi-aberta. Dentro dela, pilhas velhas, canetas ocas, papéis avulsos, notas azuis do cartão de débito: livros, remédios, rocambole e leite da padaria, pedóloga protestante, que mais sugeria uma dentista de pés. Meus pés. Ambas as unhas dos dedões encravadas. As unhas cresceram errado, por debaixo da pele fina. Inflama, incomoda, dói agradável quando aperta. As laterais dos meus dedões redondos pulsam um rosa doentio.
As cruzadas. Maior rio da Alemanha. Hora canônica. Ati é uma gaivota que nunca vi. Primeiro nome de Mussolini. Rol. Colo em inglês. O rei me chama para comer. No prato, um bife trançado de nervos, escuro de óleo queimado, salgado. Engulho. Penso em escovar os dentes, desisto. Cigarro. As serras elétricas da construção ao lado enlevam meu espírito cansado. Meu espírito, essa sinfonia desafinada com a vida, modal sem coluna grega. Meu espírito, essa sinfonia desafinada com a vida, injustiçado com a morte do maior coração do mundo que parou de bater.
Um elefante antigo, líder da manada, tombou súbito sobre o solo árido da savana. No enterro uma violinista despreparada e cômica – pudera fossem as serras elétricas – destoava na cena. A cena em plano sequência das rodas desgastadas do carro a conduzir o esquife. O elefante calado, ornado de flores, a pele maquiada por um tom quase alaranjado, como desses habitantes da Flórida que não esperam a ação lenta do sol e procuram uma clínica de bronzeamento – saúde, riqueza, bem-estar, alegria. Alegria, alegria, alegria.
O elefante tombou cansado no solo árido da Savana. Uma arara azul gritou no Pantanal, um filhote raquítico de rato gemeu numa toca escura. Algo muito precioso desapareceu do mundo, um susto, um cataclismo sem explicação, nem no banco, nem nas respostas correspondentes das últimas páginas. Nem Deus.
Há três dias sem tomar banho. Cigarro. Cruzadas. Serras elétricas. Insisto em não abrir a janelas, mesmo que seja inverno e transpire um calor africano. Prefiro cultivar os fungos, a morrinha, as pilhas e as canetas que não servem mais pra nada. Bebo água. Ventre e coração seco. Desisto de Deus. Na classificação do reino animal sou mineral.
Sobre a cama apinhada de livros lacrados, isqueiros, o celular desligado, as fotos do elefante em vida, olhando com charme para a câmera. Na tevê e seus fantasmas, a mala, fumaça azul, alguma repórter com sotaque paulista irritante declara que um vírus letal abate o país. Estico as pernas cansadas, estico os pés. Num movimento íntimo de dobrar os dedos, as serras elétricas cantam uníssono, os cantos das unhas apertam, doem, justificam o violino, a Savana, os nervos rijos, o suplício.
escrito por natércia pontes



